Na senda de Durão Barroso...
Os Coxos e os Mentirosos...



José Sócrates Pinto de Sousa, que nasceu em Vilar de Maçada a 6 de Setembro de 1957, até ser eleito primeiro-ministro de Portugal em 12 de Março de 2005, nunca tinha dito uma mentira nos dias de sua vida. O povo, votando uma maioria legislativa nunca alcançada pelo PS, elegeu sobretudo a esperança que vislumbrou no homem-jovem que então lhe surgia como espécie de providencial messias político que ia salvar o país da famigerada crise que o avassalava. Então, quase todos eram unânimes em reconhecer que Portugal estava de gatas com os fundilhos à borda do abismo.

Logo que Jorge Sampaio, a quem se atribuiu a urdidura de um habilidoso golpe-de-estado contitucional, empossou o novo governo, de imediato também a verdade que figurava no programa eleitoral do PS passou a ser verdade ao invés. Se até aí a governação do PSD-CDS tinha sido considerada voraz nos impostos, mais voracidade ainda se estendeu sobre o deprimente tecido económico dos cidadãos. O primeiro-ministro justificou o inopinado e abrupto volta-face com um displicente encolher de ombros, explicando que quando concebeu o seu promitente programa desconhecia a autêntica dimensão do saco-roto que se lhe deparou.



Entretanto e ao contrário dos 150 mil empregos que Sócrates havia prometido, diversas empresas começaram a fechar as portas e o desemprego a alastrar de lés a lés entre as camadas da população economicamente mais débil. Ainda sob o manto da expectante graça-engraçada, o nosso engraçado Zé-primeiro anuncia dois megalómanos projectos de avançada engenharia: o TGV e a OTA, desideratos que Belmiro de Azevedo, considerando o bom senso de sua benquista avó, comentou sob o dichote de «quem não tem dinheiro não tem vícios». Com Bruxelas a impôr termo imediato ao câncer do défice que há três dezenas de anos vem enchendo os bolsos da cambada corrupta, embrulhadado entre o paradôxo da acção governativa, o cotado e sério ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, não hesitou em desembrulhar-se e demitiu-se em Julho de 2005, quatro meses após a auspiciosa tomada de funções.



Herdando o nauseante imbróglio em que os processos «Casa Pia» e «Apito Dourado» se envolvem, teor que historicamente constituirá um dos passos mais absurdos da justiça portuguesa, o Governo sofreu dois clamorosos e sucessivos «nãos» do povo nas eleições autárquicas e nas presidenciais. Num sufrágio, preferiu-se até eleger personalidades judicialmente indiciadas por ilicitudes graves, e no outro, optou-se por ignorar o proclamado "pai da partidocracia vigente" a verborrear tremendas suspeições sobre a dignidade incólume.

José Sócrates
recebido
com novas vaias




Abrantes, 17.Junho.2007
Texto = Mário Rui da Fonseca
Imagem = Paulo Novais - Lusa


O dia até parecia bem encaminhado para uma jornada festiva. O maior açude insuflável construído no Tejo era inaugurado após dois anos em construção e o primeiro-ministro, José Sócrates, era convidado de honra. Mas o caldo rapidamente se entornou quando a população que se havia concentrado na Praça da República - onde decorreria a recepção oficial - recebeu a informação de que Sócrates decidira suprimir este ponto da agenda. Sentindo-se defraudadas, até porque muitas pessoas estavam ali para manifestar a preocupação pelas notícias que vão dando conta do encerramento do Hospital de Abrantes, viram assim espicaçado o seu descontentamento e decidiram ir ao encontro do primeiro-ministro, junto às margens ribeirinhas. Numa semana, Sócrates viu-se confrontado com dois apupos - o primeiro foi no 10 de Junho - mas desta vez decidiu ir ao encontro dos populares.

Gritando palavras de ordem contra a Governo, "mentiroso" e "vai-te embora", os populares, debaixo de chuva intensa, insistiam nos gritos e apupos envergando, muitos deles, T-shirts onde se podia ler "Abrantes sem hospital não". Palavras de ordem que também se misturavam com palmas. "Se acabarem aqui com o hospital como é que fazemos para ir para Tomar ou Torres Novas? Morremos pelo caminho", dizia uma idosa vinda de Alferrarede. "E com as reformas que temos como é que vamos poder pagar mais essas despesas?", remata outra. "Temos de defender o nosso hospital porque é uma das principais coisas que temos na cidade", defende Manuel dos Santos, porta-voz do movimento cívico Pró Abrantes. Demarcando-se da forma como algumas pessoas se manifestavam - "isto chega a raiar o insulto" -, Manuel dos Santos, de 76 anos e deputado à Assembleia Constituinte, refere que o movimento "representa o bom senso da nossa comunidade". E lá entregou ao primeiro-ministro o manifesto que dava conta das preocupações da população. Sócrates nunca se furtou ao contacto com os manifestantes e repetiu por várias vezes que nenhuma das valências existentes no hospital irá encerrar. "Eu lembro-me bem de Governo que mandou construir esta unidade hospitalar: era um Governo presidido por Mário Soares. Era agora o que faltava que um Governo presidido por mim mandasse alterar fosse o que fosse no Hospital de Abrantes", disse, para sossego da população. Apesar de ter sido confrontado com insultos e acusações de "mentiroso", Sócrates apelava ao fair-play: "Os políticos devem ouvir com um sorriso e eu ouço todos. Mesmo aqueles que se manifestam de forma barulhenta e agressiva contra o Governo."

Acabou tudo em bem. Até Maria Amélia Vasconcelos, directora clínica do hospital, deu a mão à palmatória, reconhecendo o facto de Sócrates ter "dado a cara". E entre os que protestavam houve quem batesse palmas...

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No momento é interessante conferir o efeito produzido pelos milhares que vivem lautamente à custa da crise e os milhões que permanecem à rasca na expectativa de que o flagelo passe. Como é que o diacho da avantesma só afecta aqueles que não têm dinheiro para comprar suspensórios? Maldito cinto. Bom, em 2009, se não for antes, vai ser com alguma emoção que os portugueses irão optar entre os ossos do gato e a pele da lebre...